O Corta Sabores prometeu e, por isso, está agora a cumprir.
No passado sábado (16) o jornal Expresso publicou a primeira de muitas notícias que lhe viriam a seguir sobre alegados casos de favorecimento, ilegalidades e irregularidades graves na maior instituição financeira privada portuguesa. O BCP acordara de um terrível pesadelo para enfrentar uma realidade ainda mais vil e cruel. E foi nessa altura que eu prometi dar aqui nota de mais desenvolvimentos e de revelações que tratariam de apanhar de surpresa os menos atentos. E, como o prometido é devido, aqui seguem algumas notas sobre o assunto.
6 dias. Foi o tempo que mediou entre Jardim Gonçalves (JG) negar o total conhecimento da dívida perdoada pelo BCP ao seu filho Filipe Jardim Gonçalves, e cuidar de passar um cheque pessoal no montante aproximado de 12 milhões de euros para saldar essa mesma dívida.
Para os que leram o artigo "O Banqueiro e o Filho Pródigo", devo situar esta narrativa na respectiva parábola. Estamos precisamente na fase em que o pai ordena dar ao filho recém regressado um anel, uma túnica e umas sandálias, e manda matar o melhor novilho para festejar o evento.
A "boda" está a sair cara a JG mas tudo indica que ainda só parte das despesas feitas pelo filho e pelos demais convivas (leia-se José Goes Ferreira e companhia) terão sido pagas pelo banqueiro. Ainda faltará acertar outras contas com quem as averiguações conjuntas do Banco de Portugal (BP) e da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) vierem a desvendar.
De acordo com os novos factos que o Expresso divulgou no passado fim de semana (uma semana depois de a Caixa de Pandora ter sido descerrada), os comensais desta boda serão mais do que muitos. Daí que a factura da mesma parece estar longe de estar paga.
Sem querer entrar em muitos detalhes (para que as minhas digestões continuem a decorrer com normalidade), não será demais lembrar que o Sr. Eng. e os demais executivos que o rodeiam sofrem dos males típicos que atacam os gestores agarrados ao poder por demasiado tempo. Concretamente, os históricos da casa que acolitaram JG na árdua tarefa de fazer brotar o BCP do zero, vêem o banco como uma comuna de onde retiram habilmente (?) recursos por via directa e indirecta para seu benefício pessoal e daqueles que os rodeiam.
Agora que se tornou público, sabe-se que JG e os seus executivos de topo usam-se de forma abusiva e descarada dos meios disponíveis a seu bel-prazer. A lista é extensa mas não foi ainda integralmente, ou minimamente, divulgada. Mas são gritantes as situações de perversidade em que, por exemplo, a família Beck (Christopher de Beck é vice-presidente do banco) fornece as instalações do BCP, no Tagus Park, com um jardim infantil, até à família Jardim Gonçalves que presta serviços de decoração e luxo a todos os espaços corporativos da instituição.
À parte dos pormenores mais sórdidos e novelesco que retiram a dignidade a um eventual romantismo imputável a esta incompleta saga, fica uma ou mais questões de fundo, de princípio, de ética - senão até de reposição da legalidade - por resolver.
Por que é que JG continua agarrado ao trono e ao ceptro depois de conhecidos todos os males que foram arrastados da Caixa de Pandora, e fazem dele o principal visado da peste que assolou o banco de que é fundador?
Depois do conhecimento público e institucional de um emaranhado de situações que, no mínimo, constrangem, humilham e, naturalmente, envergonham (?) o líder (?) histórico do BCP, o que falta para JG apresentar a sua demissão de todas as funções que ocupa na instituição, salvaguardando o que eventualmente resta da dignidade que ainda possa reclamar?
Para mim, fica uma certeza e impõe-se uma dúvida.
Certeza: o Millennium BCP virou a vida de JG de pernas para o ar.
Dúvida: suspeito que a resistência em abandonar o fausto instalado no Tagus Park tem um fundamento. A casa está desarrumada, e ainda há muito lixo varrido para debaixo dos tapetes. JG e a sua troop de cúmplices têm que aproveitar a vantagem de (ainda) estarem no terreno e arrumar o mais possível em contra-relógio com as diligências do BP e da CMVM.
Seja verdade ou não, como sucedeu com a Caixa de Pandora, para JG o mundo nunca mais será o mesmo. E ainda bem.